
Sempre a conheci com os cabelos compridos. Teria um pouco mais de um metro nessa altura. Chama-se Soraia. Poderia até chamar-se Sereia não vivesse no bairro de barracas mais pobre da localidade onde trabalho. Tinha 10 anos, um brilhozinho no olhar e um desejo enorme de aprender. Depressa começou a ler e a escrever, dizia-me contente, que finalmente alguém lá em casa poderia ler o correio. E assim era e assim é, que eu sei.
Iniciou este ano lectivo o 5º ano, ia com o primo que a protegia, caso contrário a mãe nunca a teria deixado. Segredou-me um dia a senhora que os rapazes depois olhavam para ela e vice-versa e isso não podia ser.
Tive hoje a certeza de que se casou, com 14 anos. O marido chama-se Daniel e tem 15. Ele vivia no Algarve. Deve tê-lo visto uma vez antes do enlace. Agora usa saia comprida, mas ainda veste calças, o marido não a proibiu, disseram-me.
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Sonhei muitas vezes que esta menina poderia estudar, ela tinha capacidades e acima de tudo vontade. Confesso-vos que tentei convencê-la de que tinha que estudar, tirar um curso, ou pelo menos tentar trabalhar em algum sitio. Isso seria o seu sustento, faria com que nunca passasse fome.
Depois decidi ser eu a voltar estudar e apercebi-me que estava a atentar contra uma cultura.
Mas que cultura é esta que casa crianças? Que cultura é esta que castra sonhos de criança?
Maria Madalena Vieira